domingo, 18 de julho de 2010

O Reemprego do ex-assaltante

Estava uma noite muito escura, afinal, era noite.

Em uma cidade muito pobre, mais exatamente em um quarteirão sem iluminação e com algumas casas abandonadas, caminhava um sujeito em um escuro casaco casado com a escuridão da noite.

Do outro lado do mesmo quarteirão virava outro sujeito em semelhante aspecto, mas com a diferença de uma iniciativa agressiva em que, ao encurtar-se a distância entre eles, tirou por debaixo da blusa uma arma e a apontou ao sujeito do casaco. O do casaco também se apontou para a arma igualmente sem medo e perguntou o que ele queria. A arma não disse nada, mas o sujeito que a segurava queria seu dinheiro. O do casaco olhou, olhou e então disse "Eu te conheço, rapaz!".

"Ó meu Deus!" ou algo assim bem menos dramático, com certeza, foi o que o da arma disse. Um silêncio pairou no ar por alguns poucos segundos, mais ou menos esta duração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ,.

Eles piscaram na vírgula, talvez você também. Logo o da arma reconheceu o do casaco e lhe pediu desculpas. Eram colegas da mesma empresa Sociedade dos Criminosos, com CNPJ, crimes legalizados e tudo o mais, mas que fechou as portas devido à crise, deixando na rua muitos desempregados e muitos deles, para sobreviver, foram para o mundo do crime como freelancers, mas eram considerados foras da lei. O do casaco disse que conseguiu entrar em outra empresa de crimes devido ao bom curriculum, mas o da arma, não. E também desistira de realizar o assalto, pois estava mal consigo mesmo. Talvez voltaria a viver com a avó, que era dona de 28% das bolsas da referida empresa falida.

Conversaram bastante os dois velhos conhecidos, mas o ex-assaltante desempregado não se animava. E para isso, ao ver um sujeito com uns piercing atravessando a rua, o do casaco disse "Ei... Que tal aquele dos piercings?". O da arma olhou o dos piercings e disse simplesmente "Não.". O do casaco insistiu em ir. O da arma insistiu em não e depois disse que o dos piercings é seu amigo de rua. O do casaco disse "Mas não é meu."

O da arma olhou para o do casaco, que não tinha mais casaco e sim uma arma apontada em sua direção. "Eu te dou um emprego onde estou!". E ambos se apontaram a sua arma.

"Balela!" ou algo assim bem mais macho, com certeza, foi o que o da arma disse. E ambos, com as armas apontadas, esperaram o momento exato para atirar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . , . . . . ,.

Nunca mais viram o dos piercings. Lamentável...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A Espera

Venho a esta praça há muito tempo e tenho tantas historias para serem contadas que lhes poderiam parecer que vivi três ou quatro vidas ao mesmo tempo, mas não serei o contador de historias. Outro o será melhor que eu, pois ainda que eu tenha as habilidades das palavras, meu dom é o do silêncio.

Sempre que venho consulto se é ou não o meu último dia. E faz tempo que estou nesse caminho...

Cada vez me lembro de algo diferente e hoje é uma pessoa... Uma garota... Não lembro nome, aparência, nada. Não a amo mais... Digo... Na verdade quando estava presente eu a amava muito. Quando se distanciou, aos poucos fui amando a saudade. Depois que desapareceu e o tempo passava, passava levando a saudade e, também, o meu amor por ela. Não que deixei de amá-la... De amá-la a amar a saudade, agora amo a lembrança de que a amava.

Eu lembro de sonhos que tinha. Sonhos que realizei. E que agora são sonhos de novo.

Sempre busquei bons exemplos em minha vida e lembro de meus pais como se eu os fosse agora e Eles, eu e Aliás, É no que acredito. Que sou como o eco deles.

Mas a vida é tão longa que nenhum eco faz jus à sua duração. E a saudade sempre vai quase injustamente mais longe do que a própria vida que a sente. E a minha foi tão que subiu além dos Céus, como uma pipa que ao chegar ao final do carretel estoura, com muita força, o último fio do cordão que a prende à Terra.

O cordão da minha vida também está para se desprender deste carretel sentado ao banco... Mas em paz.

Também... Sinto que minhas lembranças estão morrendo primeiro, talvez para que eu vá como um recém-nascido, sem remorso de perdas, sem ilusão de ganhos. Sinto que sou como um grande dicionário que tem suas páginas arrancadas a cada vez que consultadas... E em uma hora só restará a capa, pois ainda que eu tenha as habilidades das palavras, meu dom é o do silêncio.

Mas vou embora mais um dia. Voltar para minha casa onde um velho companheiro me aguarda para mais um dia de meditação. Quem sabe amanhã eu... Eu me lembre de outra historia. O cordão ainda está muito longe de se quebrar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Invenção do Escritor

Havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento, só havia tido a ideia de que tudo se passava em uma casa com muitos quartos, e em um deles, havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento, só havia tido a ideia de que tudo se passava em uma casa com muitos cômodos. Cômodo era sua situação se continuasse nesse ciclo. Percebendo isso, decidiu sair para explorar um pouco a vizinhança.

Havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento, só havia tido a ideia de sair de sua casa e visitar os vizinhos e, em um deles, havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento, só havia tido a ideia de sair de sua casa e visitar o vizinho, que também era escritor e estava saindo para visitar os vizinhos.

E na calçada se encontraram e se convidaram ao mesmo tempo. Riram-se da coincidência. Aceitaram o convite um do outro ao mesmo tempo. Mais riam-se da coincidência. "Então pode vir", disseram ao mesmo tempo um ao outro.

Juntos, os escritores, pensavam em uma nova historia em que, até o momento, só haviam tido a ideia de que tudo se passava na casa de um deles e lá, juntos, os escritores pensavam em uma nova historia em que, até o momento, só haviam tido a ideia de que tudo se passava na casa de um deles e lá havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento, só havia tido a ideia de que tudo se passava em uma casa com muitos quartos e, em um deles, havia um escritor pensando em uma nova historia em que, até o momento...

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Frasco de Perfume

Estava uma manhã fantástica! Tudo naquele dia poderia dar certo, senão fosse pela primeira coisa que eu vi logo ao acordar. Tão terrível que ainda não encontro palavras para descrevê-la.

Mas enquanto isso, eu caminhava remoído pelo ódio em meio aos belos cantos dos pássaros que pareciam rodear o reluzente arco-íris no céu, que nascia do infinito horizonte ao leste advindo da mão de Deus, mas cuja conexão com a terra terminava no amaldiçoado prédio em que estava o meu trabalho daquele dia e parecia satiricamente apontar o meu destino. Meu patrão, da janela me esperando e observando, com seus óculos grandes, contribuia com o cegante reflexo do sol, apenas sem as qualidades calorosas, engolindo o arco-íris como se fosse um buraco negro, simbolicamente remetendo ao seu atual estado de espírito.

Sem pensar cinco vezes adentrei ao prédio, deixando de lado a melodia da cidade que aos poucos desaparecia com o fechar das portas automáticas e anti-ruídos para entregar-me ao espaço empresarial. Conversavam, as pessoas, em vários tons e eu percebia a combinação de diversos cheiros capazes de me levar à intrigantes viagens em minha memória. E viajei tão profundamente na intuição que fui capaz de projetar minha mente e enxergar a vida passada e futura daquele cara, à uns 7 metros de mim, à direita, somente com a mescla resultante entre o fedor de seu hálito e o cheiro do café feito expectativamente com mãos perfumadas da secretária no balcão à minha frente, que me olhava curiosamente à dois palmos da minha face, medidos a partir do meu nariz, da onde minha mente foi assoada ao se materializar da regressão daquela viagem.

Falei um oi distraído. Perguntou-me se eu estava bem e o que eu queria. Perguntei-lhe se ela havia feito aquele café. Perguntou-me se eu queria. Perguntei-lhe se eu poderia tomar. Ela me disse que não tinha mais. Olhei para a cara do cara do café, que já estava me olhando desde que pronunciei "café" pela primeira vez, e me dizia com sua expressão pálida "eu tenho e você não". Aliás, ele não estava tomando, apenas o segurava contemplante, o exibindo orgulhosamente e o deixando exposto às correntes frias da brisa que inundavam invisivelmente o ambiente com aquele arrepio na pele, como que pedindo licença para compartilhar as breves sensações pertinentes aos voares dos pássaros. Ninguém mais estava com café nas mãos. Parecia segurar o cálice sagrado, só que preenchido com cicuta. Era o último café daquele prédio. E também foi o último café daquele cara, pois realmente estava envenenado, só que não era cicuta e não me preocupei com o que era até hoje, não faria diferença para resolver o crime.

Voltando de outra viagem da minha mente, só que agora pelos meus ouvidos, meu patrão, o chefe da delegacia, disse para mim, detetive, "Parabéns por resolver este caso!".

A secretária foi acusada de homicídio e a desmascarei assim que senti o seu perfume em meio ao café durante aquela minha viagem mental-nasal naquela hora. Não fazia sentido.

Caminhei naquele instante até o sujeito e educadamente lhe pedi que me passasse o copo. Infelizmente ele já havia bebido um gole, pois fora incapaz de identificar através do olfato, o que também naquele instante não mais faria diferença para ele.

Foi um péssimo dia... Como foi... Ah, já ia esquecendo... O que eu havia visto logo ao acordar foi o frasco de perfume novo que minha esposa recebeu de presente de uma amiga. Era o mesmo aroma. São dez e quinze PM e até agora aquela mulher não chegou...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Quartas-Feiras

Numa época longínqua, tão longínqua que praticamente deu a volta pela eternidade chegando ao dia de hoje, havia um rapaz que gostava muito de caminhar pelo meio das ruas nas tardes de fins de expedientes de uma quarta-feira em uma cidade super populosa. Seu nome era Deodárbio. Mas, na verdade, seu gosto por tal hábito se havia desenvolvido apenas algumas horas atrás e nisso se encerrou, pois, no sorteio dos carros que cruzavam a agitada avenida, fora atropelado por ninguém mais senão a Florecena.

Florecena era uma mulher que gostava muito de atropelar pessoas que gostavam de andar em meio às ruas agitadas de um fim de expediente às quartas-feiras. Aliás, a qualquer hora ela poderia estar disposta para isso. Na verdade, aquela fora a primeira experiência de Florecena como atropeladora desta espécie de andarilhos (espécie extinta como já devem imaginar). Pois seu gosto se desenvolvera ao longo dos anos enquanto pedestre, quando era sem carro e se sentia desrespeitada pelos com 4 ou 2 rodas. Se acabou em poucos segundos a alegria de Florecena quando ela, aparentemente, se viu perdendo o controle do seu carro, indo para debaixo de um caminhão. E era exatamente o caminhão do Seu Grifo. Quem diria, heim Seu Grifo?

Seu Grifo... O que dizer do Seu Grifo... ? Seu Grifo era um homem de fazenda muito forte e protetor da natureza. Não admitia ver nenhuma espécie ser extinta e impedia até a morte qualquer um que fizesse isso diante dele. E foi o que fez, mas não a tempo de salvar Deodárbio, mas foi a tempo de atropelar Florecena, o que foi suficiente para contentá-lo em 51%. E para o Seu Grifo "não tem borracha que apague os erro", palavras dele mesmo. Eu acrescentaria um "s" no final, mas naquele momento era o que menos importava. Pois o que mais importava era o final da estrada que Seu Grifo não percebeu existir no "S" da curva, caindo em um desfiladeiro, trombando nos morro, nas pedra, nas árvore, nos morro, nele memo e caindo rumo à fazenda de dona Terebentina e "Eu, Grifo, fui jogado pra fora do caminhão, estou aproveitando meus último momento para escrever para meus filho que tudo o que conquistei até hoje são dele. Tenho advogado nas causa. E rezo que sigam meus exemplo.", carta escrita por ele mesmo, pois os especialistas reconheceram as ausências dos "s". Os filhos de Seu Grifo não seguiram o exemplo do pai.

dona Terebentina (que exigia que dona não fosse escrito com "d" maiúsculo, mesmo no começo das frases, e em seu respeito sacrificamos esta regra) tinha um filho distante chamado Cromácio. Fim da história de Terebentina. Cromácio nunca mais viu sua mãe por culpa do Seu Grifo, que foi culpa da Florecena, que foi culpa, na verdade, do Deodárbio! E Cromácio sabia de tudo isso e, perdendo a cabeça, começou a tramar uma vingança contra todos eles mesmo não sabendo como! Tornou-se andarilho em meio às ruas nas tardes de fins de expedientes de uma quarta-feira em uma cidade super populosa. Fora atropelado pelos filhos de Seu Grifo, mas daqui para frente não sei se é verdade.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sentidos

E estava o rapaz com seus 20 anos de idade e com o seu pensamento e concentração totalmente voltados para aquela mesma garota de sempre. Entre suas lembranças e os novos momentos não haviam conflitos que gerassem dúvidas de que aquela era a mais bela de todas.

Sequer ele precisava olhar na direção de onde vinham os passos dela para perceber que chegava, pois sentia e ouvia seus caminhares como que repassando pelas pegadas já marcadas sobre a terra de sua memória.

E mesmo que dele fosse tirada também a audição, ele teria a fragância do perfume do corpo dela como guia para conduzi-lo a adivinhar o caminho até qualquer lugar onde ela poderia estar.

Mas a fala também era algo que desaparecia sempre que se via diante daquela garota ao encontrá-la. Em momentos como esse a imaginação lhe fazia companhia, sugerindo-lhe possibilidades do que dizer a ela. Vezes interessantes, vezes extravagantes. E sorria sozinho. E ria sozinho, recuperando os rastros de sua fala em meio às próprias engasgadas.

Vagava sua mente nas lembranças com ela e, frente à simplicidade daqueles fatos, a imaginação tratava-se de silenciar o desejo que, frustrado, por um triz não se explodia com suas ponderações negativistas a respeito daquela aparente imutável situação de atrito e atrito sem calor.

Mas à noite, quando todos os sentidos se iam aparentemente satisfeitos, o tato por último não conseguia se entregar ao sono. Queria sentir uma temperatura diferente, uma pele diferente, ser pego de surpresa... Ter algo de novo não apenas para si, mas para todos os outros sentidos, algo que nem mesmo a imaginação pudesse prever. Mas o que mais lhe prometia a supressão dessas saudades era a luz do sol que o atingia todos os dias durante os amanheceres de uma noite de insônia. Aquilo ainda era agradável, mas ele acordou prometendo que mudaria totalmente.

60 anos se passaram... Seus sentidos já não mais eram tão aguçados. Confundia cheiros, um olhar desfocado, falava pouco, com um paladar desgostoso e pouca audição. E também ele não sabia se os registros de sua vida ao lado da bela garota estavam em sua memória ou em sua imaginação, pois ambas se confundiam entre realidade e sonho. Foi quando eu, escritor, comovido com aquele homem, decidi não escrever sobre o que ocorreu nesses 60 anos de sua vida, pois a ele de nada importava aquela diferença quando em uma coisa sua memória e imaginação se acordavam: Aquela foi a garota mais bela de todas.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Abridor de Portas

Eram 5 horas da manhã quando Renivaldo estava em frente à porta trancada que dava para a sala principal de sua empresa. E ele tinha as chaves para abrí-la, mas tinha também medo daquele clima, como tinha todos os dias naquele lugar e naquele horário. A cidade não era para qualquer um.

E usando a calma para lutar contra a hiperatividade, ele seguiu sua trajetória que lhe prometia a distância de apenas mais 6 passos. Cautelosamente, como em uma conta regressiva, olhando para trás entre um passo e outro, ele chegou no zero. Como em uma conta mal feita, ele precisou dar mais 2 passos. O resultado desta conta estava no formato da fechadura e convidava a escolha certa da chave dentre as outras do molho que estava em sua mão esquerda.

Não foi difícil para ele, pois já estava acostumado a escolher a chave certa sem mesmo nem olhar para elas. Foi logo apontando a chave para o 8. Lentamente. E tal era a sua afinidade com aquele fenômeno que terceiros não enxergariam a fechadura lhe cumprimentando em um curvar da porta, no absorver formal da chave para seu interior, sem que Renivaldo sequer precisasse se mover para aquilo.

Foi quando este momento mágico se quebrou com o surgimento de uma sombra ameaçadora em suas costas. Mas assim que foi avistada, intuiu em desaparecer no resto de escuridão que a madrugada ainda reservava na intenção de resistir à luz do nascer do sol, mas logo foi perseguida por Renivaldo que, tirando de suas reservas a pouca coragem que tinha para resistir ao medo, não demorou a pegá-lo e derrubá-lo no chão.

Foi quando seus colegas de trabalho chegaram. E a luz do sol também chegou. Renivaldo, surpreendido consigo mesmo, voltou à condição covarde. E o homem misterioso, revelado pela luz do sol, fora identificado. Chamaram a polícia.

E a polícia chegou. Levaram Renivaldo e o homem misterioso para a delegacia. Durante o interrogatório com o homem misterioso, a interrogação lhe surgiu ao se ver livre de qualquer culpa por aquele incidente, pois Renivaldo fora identificado pela polícia como o louco que havia sido internado há anos em um hospício, identificado com a síndrome da desconfiança, pois toda vez que estava para por uma chave em qualquer fechadura, até mesmo em carros e portõezinhos, ele realizava aquele ritual dramático e qualquer um que passasse por perto era atacado por interromper com sua intenção.

Enfim, o homem misterioso estava livre e Renivaldo teve seu molho de chaves apreendido, que na verdade era um aglomerado de cópias da mesma. No dia seguinte, destruiram todas as cópias da chave e guardaram apenas uma em segurança máxima. E no amanhecer daquele dia Renivaldo não encontrou as chaves que o libertariam do sono, sendo declarado morto. Mas nunca souberam que ele já estava morto havia muito tempo quando já estava aprisionado na rotina da vida, vivendo todos os dias como uma cópia da outra.

Fim.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Detetive Perdido

Eram doze horas em ponto. Não exatamente quando aconteceu essa história, mas foi ao redor desse horário.
O sol estava livre para brilhar pelo céu sem nuvens. E como era belo os pequenos arco-íris e reflexos de seu brilho que se formavam nas gostas de água expelidas pela fonte da praça principal. Não foi exatamente onde aconteceu essa história, mas foi ao redor daquele lugar. A alguns poucos passos na verdade...

Em um banco da praça estava uma criança, meio garotão, moço... Praticamente um idoso! Enfim, este garoto estava lendo um gibi, mas qual era nem vem ao caso. O caso foi a atenção de seus olhos que caminharam forçadamente para fora das margens do papel chegando até a pessoa que ali estava diante dela. Parada.

Era um detetive. Vestia-se à caráter, era meio idoso, moço, garotão... Praticamente uma criança! Enfim, este detetive que, não percebendo a encarada que o garoto lhe estava dando, disse ao mesmo: "Com licença".

O olhar do garoto parecia dizer "Hum", com tom inquisitivo. Mas como se já soubesse que o detetive não entenderia sem explicação, ele disse "Hum!", com tom inquisitivo, mais esticado no "um".

- Estou aqui em mais uma missão e novamente procurando por uma pessoa perdida. - Disse o detetive.

E entrega-lhe uma foto sem dizer mais nada. O garoto, observando a foto, se vê quase como em um espelho. Era ele mesmo!

- Mas sou eu mesmo! - Disse o garoto, tornando minha frase acima redundante.

Como que se houvera olvidado da foto, a tirou das mãos do garoto para observá-la. Olhava primeiramente a foto e em seguida o garoto e não conseguia ver nenhuma semelhança, pois sua memória parecia curta demais para isso. Então ele os colocou lado a lado. A foto em um lado, o garoto do outro, deduzindo: "Hum... Você aparenta ter traços físicos como esta pessoa na foto e acredito que daria um belo exemplo de humano, mas não é você. Lamento."

Chocado, a pessoa (assim chamado pelo detetive) contesta que na foto está até com a mesma roupa! E esse ponto de exclamação é dele e não do narrador desta história. Ao que o detetive replica: "Mas você está perdido?".

- Não! - Disse a pessoa inconformada.

- Estou procurando por um perdido. Se você não está perdido, então não é você. - Disse o detetive calmamente.

- O senhor está louco! - Disse a pessoa, já louca.

- Louco, não. Você está perdido.

- Mas eu nem...

– Faz tempo, não é?

– O que? É que saí de casa agora pouco só pra fazer...

– Todos! Todos saem de casa só pra, só pra e só pra! Mas nunca voltam.

– Minha casa é pra lá! Eu sei onde eu vivo!

– Mas quando te encontraram que eu não vi?

– Eu nunca me perdi! Agora com licença que eu vou pra outro lugar! - Disse a pessoa já indo embora desistindo de qualquer conversa.

O detetive o deixa ir, como se fosse parte de seu plano para devolvê-lo à sua casa. O persegue por todos os lados, tentando se esconder por trás de objetos e pessoas, espionando-o. O garoto na realidade o vê sempre, mas o ignora, deixando-o acreditar que não o estava vendo. "É um louco."

Após uma longa e cansativa caminhada, a pessoa, desistindo de andar e com o dia já para terminar, senta-se num banco de uma praça fingindo estar perdida.

O detetive, com energia parecida com a do começo deste conto, se aproxima da pessoa e diz "Está perdido, não é filho?"

Ao que seu chamado filho lhe responde "Como adivinhou?"

- Já achei até mesmo bebês perdidos! Olha só!

Com um gesto rápido e com grande performance ele põe a mão para dentro de seu casaco e tira de lá uma carteira com três fotos de bebês. Exatamente o mesmo bebê, ao que o filho (o detetive o chamou assim, lembra?), observando, percebe rapidamente. O que não lhe causa espanto, mas lhe inspira a perguntar se o detetive em questão poderia lhe ajudar.

- E como posso! Vamos lá... É... Seu nome mesmo, garoto?

- Meu nome é Luiz. - Responde o garoto. O narrador agradece essa parte do roteiro. Estava enchendo o saco saber do nome dele e ficar substituindo por tantos substantivos fingindo não saber de nada!

Rapidamente Luiz se levanta do banco e caminha, num movimento automático, ao lado do detetive. Este lhe dizia com muita confiança que o levaria até sua casa em segurança. Essa rima não ficou legal... "Que o levaria até sua casa seguramente."

Luiz, rapidamente, demonstrou perder o ânimo de quando se levantara do banco, coisa que o detetive tem de sobra e este, instigado por sua percepção, lhe questiona se está com medo. Luiz, também perceptivo, percebe... Percebe fica ruim... Vê o que está fazendo e diz "Medo...? Não!"

- Por que essa cara fechada de repente? - Insiste o detetive.

Sem obter resposta, eles continuam o caminho em silêncio, mas sem que o detetive sossegasse sua animação e suas expressões em busca de entendê-lo.

- É... - Puxou o detetive novamente - Já é capaz de se recordar onde mora?

- Sim! Daqui já é possível. É ali na quinta rua, vê?

- Então vamos logo, pois meu dia é curto!

Sem demora eles descem quatro ruas e entram na quinta e, enquanto andam por ela, entre as casas de ambos os lados das esquinas, o detetive segue apontando e arriscando palpites a cada três casas, dizendo sempre que aquela que ele apontava era a casa do Luiz, mas este apenas seguia negando, mas não com muita firmeza, meio também fingindo estar perdido para não ficar tão na cara de que já sabia onde morava.

Luiz, então, pára diante de uma casa e simula se lembrar que mora ali por perto.
O detetive então aponta para uma casa, mas não é aquela. Aponta para outra e mais outra. Exatamente a casa à sua frente, que ele não aponta, é a casa onde Luiz mora.

- É esta casa aqui. – Diz Luiz, apontando para ela.

- Oh! Oras essa! Você deve ter a herança de um bom detetive, meu caro! - Diz o... Ah! Você sabe quem disse isso!

Luiz então abre o portão para entrar na (sua) casa e, entre fora e dentro dela, convida o detetive para entrar também, convencendo-o após insistir um pouco.

Ele então abre a porta principal da casa e entra sem pedir licença. Sua mãe, por coincidência, estava diante da porta para abrí-la, carregando o lixo da casa para por para fora.

- Oi, mãe... Já estou de volta... - Disse Luiz, desanimado como você deve estar por sentir que o conto está acabando!

- Ué! Não ia chegar mais tarde? - Disse a patroa, digo, a mãe do Luiz.

- Como mais tarde? Olha aqui... - Disse o desanimado Luiz apontando para o detetive.

- Seu pai de novo achando que é detetive?

- Pois é, mãe! Já está me envergonhando isso!

- Ai, filho... Entenda-o, por favor. - Disse a mãe, já deixando o lixo no chão da própria casa e não sabendo para quem olhar e o que dizer.

- É bom ver filho e mãe se reencontrando de novo! Missão cumprida! - Comemorava o detetive, ao mesmo tempo que entrava em casa, pulando alegremente o lixo e indo para seu quarto.

A porta se fecha... Ouve-se uma discussão. Houve um desacordo.

Luiz sai de casa, pega o lixo que a mãe deixou em frente à porta e o leva para fora da casa. Chegando no portão, diz que vai sair novamente e voltar mais tarde.

Ao ouvir isso, o detetive, que estava se aprontando para tomar seu banho quente após tanto trabalho, pensa consigo mesmo: "Sinto que precisam de mim! Tenho mais uma missão!"

sexta-feira, 12 de março de 2010

No Bar

E segurávamos a xícara de café no mesmo balcão, um ao lado do outro. Não nos conhecíamos. Eu queria conhecê-la. O clima entre nós estava frio como o meu café que há meia hora se encontrava imaculado. Eu fingia esperar alguém e às vezes girava minha cabeça e meu corpo em 360º. Ela estava à 150º leste, a mais ou menos 2 m² de distância do meu centro gravitacional. Sua presença era responsável pela sensação de calor unilateral que eu sentia e me causava arrepios, até que percebi que era o ar-condicionado daquele lado que estava desligado e na verdade me causava uma leve sensação de choque-térmico.

"Tenho que parar de pensar bobeiras e pensar em um modo de me aproximar..."

Vagarosamente a postura de seu corpo adquiriu um belo ângulo às 15:50, diminuindo a distância em 17 cm² a bombordo. Suas velas estavam baixas e meu leme já estava desgovernado. Tentei remar em sua direção, mas logo à minha proa avistei alguns piratas que com suas bandeiras erguidas preparavam suas âncoras para atracar nos conveses da donzela.

"Eu disse que tenho que parar de pensar bobeiras, tenho que chegar primeiro!"

Rapidamente os corruptos lenhadores se aproximaram da única árvore que restava com a intenção de cortar sua pureza. Eu escorria pelo chão enquanto eles afiavam seu machado. O primeiro passo de um dos gigantes foi de tremer a terra! Eu via o inverno chegando! Sem nenhum outro pensamento parti em disparada ficando entre as folhas macias da árvore e o afiado metal do machado! E ele me acertou, impiedosamente... Senti o sangue correndo pelo meu ombro que parecia...

"Espere aí... Isso é vinho...! Essa não! Estou diante da moça pensando besteiras!" Aquele cara se esbarrou em mim de propósito derrubando vinho nos meus ombros. A garota lamentou por aquele incidente e me disse que "aquele rapaz é meu irmão, não ligue pra ele".

Fiquei mais tranquilo após ouvir suas primeiras palavras. "Mas e os lenhadores? Quero dizer. Posso me sentar no no no..." Ela me interrompeu e completou a frase dizendo para eu me sentar.

"Agora eu começo um diálogo! Não posso pensar bobeiras!"

Para cada sílaba que pronunciava, seus lábios se movimentavam como uma impossível tromba de água na escala F5, sugando e destruindo todas as amarras da minha mente. Sua delicada mão era como uma linda beira de praia que radiava fortemente seu rosto brilhante como o sol do meio-dia e me convidava a caminhar por entre os pequenos e belos castelinhos de areia. Mas em meio às conversas, entre uma risada e outra, as suaves pontas de seus dedos invadiam o meu peito e o meu braço desprevenidos como um tsunami. Eu nunca previa sua chegada e ainda com o tempo a frequência e a força das ondas seguiam aumentando. Confundi-me entre o medo e intimidade. Foi quando parte da água parecia ter tampado meus ouvidos me impedindo de ouvir o que me dizia. Seu vestido balançava e dançava com as ondas de águas rasas e isso me seduzia para um mergulho. O problema foi que logo surgiram alguns falcões peregrinos que, famintos, a olhavam em busca de um mergulho rápido para pegar alguns peixes. E eu não queria apenas peixes. Deixei de me preocupar com isso e esperei pela próxima onda. E dessa vez eu a percebi, mas só percebi depois que havia deixado de pensar bobeiras, deixado de pensar em qualquer coisa... Entreguei-me de corpo inteiro e mergulhei de olhos fechados.