sexta-feira, 12 de março de 2010

No Bar

E segurávamos a xícara de café no mesmo balcão, um ao lado do outro. Não nos conhecíamos. Eu queria conhecê-la. O clima entre nós estava frio como o meu café que há meia hora se encontrava imaculado. Eu fingia esperar alguém e às vezes girava minha cabeça e meu corpo em 360º. Ela estava à 150º leste, a mais ou menos 2 m² de distância do meu centro gravitacional. Sua presença era responsável pela sensação de calor unilateral que eu sentia e me causava arrepios, até que percebi que era o ar-condicionado daquele lado que estava desligado e na verdade me causava uma leve sensação de choque-térmico.

"Tenho que parar de pensar bobeiras e pensar em um modo de me aproximar..."

Vagarosamente a postura de seu corpo adquiriu um belo ângulo às 15:50, diminuindo a distância em 17 cm² a bombordo. Suas velas estavam baixas e meu leme já estava desgovernado. Tentei remar em sua direção, mas logo à minha proa avistei alguns piratas que com suas bandeiras erguidas preparavam suas âncoras para atracar nos conveses da donzela.

"Eu disse que tenho que parar de pensar bobeiras, tenho que chegar primeiro!"

Rapidamente os corruptos lenhadores se aproximaram da única árvore que restava com a intenção de cortar sua pureza. Eu escorria pelo chão enquanto eles afiavam seu machado. O primeiro passo de um dos gigantes foi de tremer a terra! Eu via o inverno chegando! Sem nenhum outro pensamento parti em disparada ficando entre as folhas macias da árvore e o afiado metal do machado! E ele me acertou, impiedosamente... Senti o sangue correndo pelo meu ombro que parecia...

"Espere aí... Isso é vinho...! Essa não! Estou diante da moça pensando besteiras!" Aquele cara se esbarrou em mim de propósito derrubando vinho nos meus ombros. A garota lamentou por aquele incidente e me disse que "aquele rapaz é meu irmão, não ligue pra ele".

Fiquei mais tranquilo após ouvir suas primeiras palavras. "Mas e os lenhadores? Quero dizer. Posso me sentar no no no..." Ela me interrompeu e completou a frase dizendo para eu me sentar.

"Agora eu começo um diálogo! Não posso pensar bobeiras!"

Para cada sílaba que pronunciava, seus lábios se movimentavam como uma impossível tromba de água na escala F5, sugando e destruindo todas as amarras da minha mente. Sua delicada mão era como uma linda beira de praia que radiava fortemente seu rosto brilhante como o sol do meio-dia e me convidava a caminhar por entre os pequenos e belos castelinhos de areia. Mas em meio às conversas, entre uma risada e outra, as suaves pontas de seus dedos invadiam o meu peito e o meu braço desprevenidos como um tsunami. Eu nunca previa sua chegada e ainda com o tempo a frequência e a força das ondas seguiam aumentando. Confundi-me entre o medo e intimidade. Foi quando parte da água parecia ter tampado meus ouvidos me impedindo de ouvir o que me dizia. Seu vestido balançava e dançava com as ondas de águas rasas e isso me seduzia para um mergulho. O problema foi que logo surgiram alguns falcões peregrinos que, famintos, a olhavam em busca de um mergulho rápido para pegar alguns peixes. E eu não queria apenas peixes. Deixei de me preocupar com isso e esperei pela próxima onda. E dessa vez eu a percebi, mas só percebi depois que havia deixado de pensar bobeiras, deixado de pensar em qualquer coisa... Entreguei-me de corpo inteiro e mergulhei de olhos fechados.