quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Desconhecida Aline

Estavam no bar dois amigos, um deles muito querendo conhecer uma garota, mas não sabia como chegar até ela.

Após conversarem e beberem algum tipo de suco, o rapaz finalmente pede por uma dica rápida e que funcione, pois o bar logo fecharia e ele perderia a chance de falar com a garota.

O rapaz então lhe diz para usar uma técnica que ele usou e funcionou mais de uma vez. Simplesmente consistia de chegar na garota e perguntar se ela era amiga em comum de alguém que ele conhecia também. Porém, por segurança, deveria inventar um nome e descrições falsas. A garota questionada irá dizer que não, mas ai você parte para dizer que parece que já a viu e essas coisas.

- Logo você irá perceber se a garota te curtiu ou não, saco?

- Entendi... É uma boa! Ela está me olhando, realmente posso inventar que a conheço por outra pessoa, mas a pessoa para mim não existe! Não é?

- Isso ai, é tranquilo... Vai lá agora!

O garoto então caminha por entre as multidões, tocando os ombros de todos enquanto pede licença para passar. Ele então chega perto dela, eles se olham, ele não para de sorrir. Antes de falar, puxa um pouco de ar, aperta um poucos os olhos para se concentrar e começa...

- Viu... Você é amiga da Aline?

- Sim! Sou sim, muito amiga dela!

- Amiga mesmo? Mas é a Aline de cabelos compridos e...

- Isso, essa mesma!

- Pele um pouco...

- Morena, né? Demais a pele dela.

- E que pratica... - Diz o garoto já cansado de ser interrompido, fazendo gestos curtos de socos no ar.

- Ela luta muito! Vive viajando pra competição!

- Hum... Acho que não é a mesma Aline.

A garota não se aguenta e começa a rir muito. Logo pega na mão dele dizendo que irá apresentá-lo aos seus amigos e amigos da Aline.

Quando vão para o outro lado do bar, há mais ou menos 24 pessoas reunidas. A garota já chega gritando e calando todo mundo com a frase "Ai pessoal, esse cara aqui é mó amigo da Aline também!"

Todos os caras logo começam a sorrir para ele e vão cumprimentá-lo.

- Ela é legal mesmo, essa Aline né? - Pergunta tímido o garoto.

- Mas que pergunta! Aline é a melhor! Não tem pra ninguém! - Responde um cara bebendo cerveja e batendo os ombros no garoto a cada ponto de exclamação.

- E logo logo ela vai chegar de viagem! - Grita um outro.

- Pessoal, eu esqueci uma coisa ali atrás e... - diz o garoto tentando escapar.

- Calma todos! Ninguém se mexe! É ela me ligando! - Diz a garota toda animada.

Todos comemoram pela ligação recebida e alguns até lamentam que não foi no celular deles. Outros lamentam que esqueceram os celulares para lamentarem por isso. Outros nem estavam lá, mas foram avisados por SMS para se lamentarem.

Quando o garoto dá o segundo passo para conseguir se afastar sem ser visto, a garota no celular pergunta alto: "Como assim?"

E a cada 2 segundos, o drama aumentava com seu desespero, seguido de lágrimas e palavras como "Mas quando?", "Por quê?", "Não é possível!", "Não aceito isso!", "E agora?", "Alô?", "Respondam!" e "Nãooooo!". Obviamente a partir do "Alô?" já tinham desligado na cara dela.

Todos ficam em silêncio observando a garota chorar com o celular na mão desligado e ainda próximo aos ouvidos e boca. Alguém chega perto e pergunta o que foi. Ela não esconde. Grita como se ecoasse em toda a cidade: "Ela morreu!".

"Ah... Agora sim..."

O garoto fica parado enquanto alguns vão em direção à garota exigindo explicações, outros estão chorando por todo o lado no bar, alguns estão irritados com a situação, e outros foram avisados por SMS sobre o ocorrido.

- Rapaz? Tudo bem com você? - Pergunta um cara grande e forte pro garoto.
- To... To bem sim. Diz o garoto tentando parecer triste, mas não conseguindo.

- Não entre em choque rapaz, vou chamar um médico pra você!
- Ã? O que? Não! Não precisa! - Responde o garoto tentando para-lo.
- Eu sei como é perder uma pessoa que se ama. Sei que vocês eram muito amigos, mas fique ai que eu já volto.

O garoto tenta fugir, mas todos no bar estão agitados e ele não consegue sair. Seu amigo desapareceu na multidão. Logo já chegou a polícia e ambulância para acalmar o povo.
O rapaz grande e forte correu até um enfermeiro e indicou o garoto que estava em choque. O garoto estava parado olhando pro chão.

- Nossa, realmente está pra baixo. Devia gostar da Aline mais do que nós, não é? - Diz o enfermeiro para o rapaz.

O garoto na verdade pensava em como sair dali, quando olha para o lado e vê o enfermeiro chegando.

O garoto estica os braços, mas quando o enfermeiro vai pegá-lo, ele grita "não!" e sai correndo, conseguindo empurrar a multidão e chegar até a porta do bar. Lá, ele encontra a garota que lhe puxou a mão, a mesma que recebeu a notícia pelo celular, e a mesma que agora chorava e olhava para ele.
Ele caminhou em direção à ela e sentou-se ao lado dela.

- Viu... É... - O garoto tenta falar, mas é interrompido por ela.
- Não, não precisa me consolar. Essas coisas acontecem. É bom estar aqui com você.
- A é? - Pergunta o garoto, surpreso.
- Sim... Eu liguei para os pais da Aline. O velório será amanhã à noite, está bem?
- Ótimo. Nos veremos lá então? - O garoto tenta se manter convincente.
- Bem... Sim, com certeza.
- Está bem.
- Promete que vai?

- Prometo. - Responde o garoto.

- Prometo que irei e conversaremos mais. - O garoto continuou.

- Que bom.

Algumas poucas olhadas menores que essa frase descritiva ocorreram entre eles.

- Estou vendo que está indo.

- É... Eu estou indo mesmo, isso virou uma bagunça! - Responde o garoto.

- Está bem. Até amanhã então. - Diz a garota sorrindo.

- Até amanhã! Bom te conhecer.

- Digo o mesmo! Tchau.

Parte, amor, porta, ama, cama, amar, dormir, amo, acorda, amamos, vai, amando, velório, amou.

"Será que eu deveria estar aqui?" Pergunta-se o garoto após 30 minutos de já ter entrado no velório.

O garoto chega perto do caixão tentando ver o rosto da Aline, mas foi impedido pelos familiares, que queriam que todos os amigos preservassem suas melhores memórias de uma Aline forte que conheciam.

Após alguns minutos, a garota chegou perto dele, agarrou a sua mão e logo soltou, olhando-o por algum tempo antes de falar.

- Ei, vamos então? - Pergunta a garota para o garoto.
- Vamos... Sair? - Pergunta o garoto.
- Uhum... - A garota responde bem baixinho e olhando para a frente.

Os dois caminham para uma praça perto, pegam sorvete para tomar, mas não conversam.

- Tem algo que... Quero te contar. - Diz o garoto após o silêncio lhe incomodar.
- Sim, eu também tenho algo pra te contar. - Diz a garota.
- Ah, bom... Então diz você primeiro.
- Obrigada!

A garota pensa um pouco e logo começa.
- É assim... Eu sei que é você o garoto, e fico feliz de estar com você.
- Não entendi, pera ai.
- A Aline... Antes de viajar ela me disse que iria me apresentar um garoto, que eu iria gostar muito e essas coisas.
- Hum... Sei.
- Não sei se sabe mesmo, mas sei que é você. Ela disse que o rapaz seria exatamente como você é.
- Bom, ela não me disse nada. Diz o garoto fingindo procurar em sua memória.
- Acho que ela não te contou mesmo. Quando eu te olhei no bar, eu suspeitei que era você. Mas quando você me disse que era amigo dela, eu tive certeza.
- Que bom que me identifiquei!
- Sim, foi ótimo. No começo eu achava que fosse mentira toda aquela descrição dela, mas você é real.
- Você também é. E a Aline também.

A garota riu um pouco do que ouviu. Pensativa, mas riu.

- Eu estou gostando de você. - Diz a garota.
- A é? Eu acho que já gosto de você. - Diz o garoto.
- Como conheceu a Aline? - Pergunta a garota.
- Ah... Bom... Não sei dizer... Pra falar a verdade...
- Sim, eu entendo... É o que todos dizem e eu também. Todos sentem que a conhecem há muito e muito tempo. Ela foi minha melhor amiga.
- Eu posso dizer o mesmo. - Diz o garoto.

E conversaram durante muitas horas, dias, meses... Talvez durasse anos, décadas, séculos.

"Só não entendo de onde eu inventei Aline, se eu tivesse falado qualquer outro nome..."

Fim.