segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Frasco de Perfume

Estava uma manhã fantástica! Tudo naquele dia poderia dar certo, senão fosse pela primeira coisa que eu vi logo ao acordar. Tão terrível que ainda não encontro palavras para descrevê-la.

Mas enquanto isso, eu caminhava remoído pelo ódio em meio aos belos cantos dos pássaros que pareciam rodear o reluzente arco-íris no céu, que nascia do infinito horizonte ao leste advindo da mão de Deus, mas cuja conexão com a terra terminava no amaldiçoado prédio em que estava o meu trabalho daquele dia e parecia satiricamente apontar o meu destino. Meu patrão, da janela me esperando e observando, com seus óculos grandes, contribuia com o cegante reflexo do sol, apenas sem as qualidades calorosas, engolindo o arco-íris como se fosse um buraco negro, simbolicamente remetendo ao seu atual estado de espírito.

Sem pensar cinco vezes adentrei ao prédio, deixando de lado a melodia da cidade que aos poucos desaparecia com o fechar das portas automáticas e anti-ruídos para entregar-me ao espaço empresarial. Conversavam, as pessoas, em vários tons e eu percebia a combinação de diversos cheiros capazes de me levar à intrigantes viagens em minha memória. E viajei tão profundamente na intuição que fui capaz de projetar minha mente e enxergar a vida passada e futura daquele cara, à uns 7 metros de mim, à direita, somente com a mescla resultante entre o fedor de seu hálito e o cheiro do café feito expectativamente com mãos perfumadas da secretária no balcão à minha frente, que me olhava curiosamente à dois palmos da minha face, medidos a partir do meu nariz, da onde minha mente foi assoada ao se materializar da regressão daquela viagem.

Falei um oi distraído. Perguntou-me se eu estava bem e o que eu queria. Perguntei-lhe se ela havia feito aquele café. Perguntou-me se eu queria. Perguntei-lhe se eu poderia tomar. Ela me disse que não tinha mais. Olhei para a cara do cara do café, que já estava me olhando desde que pronunciei "café" pela primeira vez, e me dizia com sua expressão pálida "eu tenho e você não". Aliás, ele não estava tomando, apenas o segurava contemplante, o exibindo orgulhosamente e o deixando exposto às correntes frias da brisa que inundavam invisivelmente o ambiente com aquele arrepio na pele, como que pedindo licença para compartilhar as breves sensações pertinentes aos voares dos pássaros. Ninguém mais estava com café nas mãos. Parecia segurar o cálice sagrado, só que preenchido com cicuta. Era o último café daquele prédio. E também foi o último café daquele cara, pois realmente estava envenenado, só que não era cicuta e não me preocupei com o que era até hoje, não faria diferença para resolver o crime.

Voltando de outra viagem da minha mente, só que agora pelos meus ouvidos, meu patrão, o chefe da delegacia, disse para mim, detetive, "Parabéns por resolver este caso!".

A secretária foi acusada de homicídio e a desmascarei assim que senti o seu perfume em meio ao café durante aquela minha viagem mental-nasal naquela hora. Não fazia sentido.

Caminhei naquele instante até o sujeito e educadamente lhe pedi que me passasse o copo. Infelizmente ele já havia bebido um gole, pois fora incapaz de identificar através do olfato, o que também naquele instante não mais faria diferença para ele.

Foi um péssimo dia... Como foi... Ah, já ia esquecendo... O que eu havia visto logo ao acordar foi o frasco de perfume novo que minha esposa recebeu de presente de uma amiga. Era o mesmo aroma. São dez e quinze PM e até agora aquela mulher não chegou...

2 comentários:

  1. por isso que eu não tomo café... nem cicuta.... Mas dei uns perfumes pra minha namorada... Sem veneno, aliás, pq de veneno na vida dela basta eu....

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