domingo, 25 de maio de 2014

Desejo de correr

Certo dia, já cansado de treinar corrida, eu estava caminhando e decidi pegar um caminho diferente, uma estrada, para ter mais espaço. Cheguei numa parte que tinha apenas uma pista, sem divisória para os carros, mas eu via um carro vindo da esquerda para a direita até desaparecer na curva. Depois outro vindo da esquerda até a direita, também desaparecendo após a curva. Até que fazia sentido... A pista se estreitou ainda mais, e passei a me estreitar para andar no cantinho dela.

De repente, eis que surge um caminhão ao longe e pensei: "Como ele vai... Meu deus!" E ele quase me atropela de propósito, pois tive que pular para o outro lado para escapar. Ainda na adrenalina, rapidamente me levantei e olhei para vê-lo desaparecendo na curva. Mas ele brecou igual meu coração nessa hora. O caminhão engatou a marcha ré e começou a vir na minha direção. Me virei e comecei a andar na minha, de boa... Quando olhei para trás, ele já estava de frente para mim, "Mas como ele vi... Deixa pra lá! Melhor correr!". Fui em direção à curva onde tudo desaparecia. De repente, vi um ônibus vindo em minha direção e pensei "Serei esmag... Mas pararam?". O ônibus estava carregado de gente com ferrões, tochas queimando e armados! Eu nem fiz nada e estou aqui por quê?

Algumas pessoas do ônibus apontaram para cima e então olhei. De lá descia um homem levitando. Pensei "Ele vai expuls... Ele matou o caminheiro!". Sem dizer nada, o cara foi voando para o ônibus. Pensei "Não acho que ele sozinho vai conseg... Nossa... Como ele fez isso?". Bom... Acho que é meu herói, meio violento, mas herói, daqueles que não cobram nada e vão embora sem... Por que ele está me olhando? Acho que vou pagá-lo por isso... Pego minha carteira no bolso, abro, procuro entre os dedos do cara que estão dentro da minha carteira e não acho nada, já é tudo dele... Pensei em ligar para a polícia e denunciá-lo em flagrante, até que vi a polícia chegando. O cara não fez mais nada além de ficar contando o dinheiro. O carro da polícia tinha dois policiais e tive a sorte de que eu conhecia um deles. Fiz a denúncia e apontei o cidadão que estava de costas. O outro policial preparou as algemas e foi até ele. Quando chegou perto, ele conhecia o cara! Eram amigos de infância e inclusive o cara voador é da polícia também. Percebi que eu estava numa enrascada das feias... Foi quando acordei... "Ufa, foi só um sonho. Achei que estava mergulhando num mar de piranhas!! E eu tenho medo do mar, das piranhas não, do mar mesmo!". Falei pro meu parceiro do presídio, mas ele não é amigável. Ninguém me escuta aqui.

Amaldiçoei o dia em que decidi caminhar na estrada, mas o dia nem havia terminado e não deu tempo de desamaldiçoá-lo. Neste instante, surge o "herói" e diz para mim: "Pare de beber." Não entendi direito, pedi que repetisse o que disse e ele disse "Voltamos à nossa programação". E estava eu sentado no sofá da minha casa assistindo televisão. Tudo não passou de um simples comercial de TV! Pensei "Que poder estr..." "CORTA!".

Nessa hora explodi! Eu estava atuando da melhor forma possível e o diretor simplesmente grita "CORTA?! Ahhhhh..." O diretor não gostou da minha atitude em desafiá-lo e fui expulso do programa. Não é porque ganho milhões de dólares que vou ficar obedecendo tudo o que me dizem! Vou voltar a fazer o que sempre tive vontade... Correr...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A ideia

Desde que acordei de manhã com aquela ideia excepcional, não conseguia pensar em outra coisa. Deixei de arrumar a cama e me trocar para não esquecer-me da ideia e logo vazei de casa. Não comi, não tomei banho, não escovei os dentes, não entrei na internet, não falei com ninguém. Simplesmente fui embora. Deixei abertas as janelas, portas, o carro, o guarda-roupa, zíper da calça. Saí com o cabelo desarrumado, suor escorrendo, tênis desamarrado, meias diferentes, roupas amassadas. Deixei carteira, celular, chaves, sei lá mais o que não sei aonde. Primeiro pé na calçada e segui andando, não via carros, ônibus, pessoas, lojas, videogames, garotas. Mantinha a ideia na cabeça para não esquecer. Segui andando. Não via bicicletas, árvores, pássaros, flores, abelhas, garotas. Primeiro pé na estrada. Não via caminhões, trens, pedágios, túneis, parques, garotas. Largando tudo, menos a ideia. Ando, ando e ando, com a ideia na cabeça e não via aeroportos, templos, florestas, montanhas, oceanos, precipícios, garotas. Primeiro pé naquele precipício com a ideia na cabeça e segui caindo em pé mesmo sem ver a gravidade, escuridão, Grifos, Unicórnios, Dragões, garotas. Só via minha ideia. Primeiro pé na aterrisagem. Não via peso, corpo, matéria, garotas. No abismo só me restou sentar pra focar na ideia. Não via chão, bunda, respiração, sentidos, espaço, tempo, mente, garotas. Primeiro pé na iluminação e não via Buda, Jesus, Babaji, Krishna, Maomé, Kali, garotas. E a ideia ainda viva, imaculada para ser posta em prática. Primeiro pé na ideia e segui... Não vi nada, só garotas.