quinta-feira, 15 de maio de 2014

A ideia

Desde que acordei de manhã com aquela ideia excepcional, não conseguia pensar em outra coisa. Deixei de arrumar a cama e me trocar para não esquecer-me da ideia e logo vazei de casa. Não comi, não tomei banho, não escovei os dentes, não entrei na internet, não falei com ninguém. Simplesmente fui embora. Deixei abertas as janelas, portas, o carro, o guarda-roupa, zíper da calça. Saí com o cabelo desarrumado, suor escorrendo, tênis desamarrado, meias diferentes, roupas amassadas. Deixei carteira, celular, chaves, sei lá mais o que não sei aonde. Primeiro pé na calçada e segui andando, não via carros, ônibus, pessoas, lojas, videogames, garotas. Mantinha a ideia na cabeça para não esquecer. Segui andando. Não via bicicletas, árvores, pássaros, flores, abelhas, garotas. Primeiro pé na estrada. Não via caminhões, trens, pedágios, túneis, parques, garotas. Largando tudo, menos a ideia. Ando, ando e ando, com a ideia na cabeça e não via aeroportos, templos, florestas, montanhas, oceanos, precipícios, garotas. Primeiro pé naquele precipício com a ideia na cabeça e segui caindo em pé mesmo sem ver a gravidade, escuridão, Grifos, Unicórnios, Dragões, garotas. Só via minha ideia. Primeiro pé na aterrisagem. Não via peso, corpo, matéria, garotas. No abismo só me restou sentar pra focar na ideia. Não via chão, bunda, respiração, sentidos, espaço, tempo, mente, garotas. Primeiro pé na iluminação e não via Buda, Jesus, Babaji, Krishna, Maomé, Kali, garotas. E a ideia ainda viva, imaculada para ser posta em prática. Primeiro pé na ideia e segui... Não vi nada, só garotas.

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